sábado, 18 de abril de 2015

           
      01.09.2002 ( domingo) 7 dias sem fumar e sem beber
      ( na foto eu carregando a faixa na abertura do FERA " Festival de Arte da Rede Estudantil!)

   Levanto, trato os bichos e retorno pra cama, o tempo frio está propício para isso. O cigarro era um cobertor pra mim. Agora, em abstinência, sofro e o meu corpo parece sem forças. Ontem, ao voltar da farsa dos sorteios, atendi mais de 50 pessoas, nem sei quantas baforadas levei na cara. Tive que ter paciência de budista pra não dar um pontapé na bunda de cada cliente que entrava aqui fumando. Uivei várias vezes.
   Todo dia colo na parede do bar uma frase e quantos dias já estou sem fumar, para preparar o espírito do cliente, caso ele me ache de cara amarrada e mal educado. Pois, sinceramente não tenho tido nem vontade de conversar ou ouvir piadinhas. Acho que nem escuto mais nada que não seja só o que a pessoa quer comer ou beber. Tenho devorado balas, a ponto de, ontem, por estar sem bala, descer do ônibus completamente desesperado, correndo atrás da primeira banca que vi. Comprei muitas balas, variadas, mas minha vontade era comprar um derby, tomar uma cerveja e fumar 1,2, 3...e quantos fossem necessários pra sair do desespero psicológico. Obrigado, Deus, por mais um dia vivo, sem beber e sem fumar.


    31.08.2002 ( sábado) 6 dias sem fumar e sem beber

   ( na foto eu e meu irmão Tadeu - Grande escritor, publicitário, professor e poeta)  

   Como sempre levanto pensando no cigarro, é tanta vontade que volto a dormir mais um pouco, enquanto meu filho não acorda. Depois, vou visitar minha mãe e fazer compras. Brinco bastante com meu filho, apesar do peso cerebral da falta de nicotina e da bebida. Resolvo não abrir o bar no horário costumeiro, pois quero testemunhar os sorteios do caminhão " preparado" da sorte, que vai ser realizado no pátio do Big. Saio de lá totalmente decepcionado. Foi duro ver aquela vergonha ao vivo, olhar para todas aquelas pessoas se imaginando milionárias, todas pensando que seriam acertadoras. Como é fácil manipular, enganar, roubar os terráqueos primitivos. Pelas vozes que ouço, dentro dos meus delírios, eu afirmo: - O CAMINHÃO DA SORTE DA CEF É UMA MÁQUINA DE FABRICAR RESULTADOS. Muita gente já deve ter visto como é o sorteio da tele-sena do Silvio Santos. Em um único globo gigante são colocadas todas as dezenas juntas, roda e a bola pára no buraco e a moça tira então a sorteada. Este é o modo correto. Nas loterias da Caixa são vários globos girando automaticamente que ficam em cima de uma espécie de balcão. Você não vê o que tem embaixo daquele balcão, mas tem uma puta fiação e mecanismos, ao lado, fica uma pessoa num painel cheio de botões que controla tudo. Eles mandam uma pessoa qualquer no meio do público apertar um botão numa espécie de controle remoto, tentando induzir as pessoas a pensar que, ao toque dela,  sai a bolinha sorteada. Mentira, as bolinhas são já preparadas pela pessoa que controla o painel. Estou falando um FATO. E eles fazem todo aquele carnaval, moças bonitas na frente, brindes da Caixa para o público, fiscais leigos que escolhem no meio do público, um espetáculo. Duro foi o que vi, no momento de sortear o prêmio da Mega-Sena acumulada foi pior ainda. Eles retiraram a caixa de bolinhas e foram buscar outra. Quando eu perguntei porque estavam trocando as bolas, o cara tremeu. Você está duvidando? Quer pesar as bolinhas? - ele perguntou.Daí foi lá, levou as bolinhas trocadas e disse que trouxe as que tinham sido usadas anteriormente. Coisa que ninguém viu. Eu falei que ñão estava no peso das bolinhas as falcatrua e, sim, em algum mecanismo secreto, tipo código de barras, que aquela parafernália de equipamentos controla.
   Se vocês não acreditam em mim, perguntem parra as centenas de pessoas que lá estavam. E teve mais. Eu pedi uma daquelas bolinhas do globo e não quiseram dar, alegando que era propriedade da caixa. Os seguranças já me olhando torto , evitei mais confusão, fiquei em silêncio um tempo e fui embora. Tirei fotos do caminhão e seu painel manipulador como lembrança do dia que perdi todas as dúvidas de que os sorteios são direcionados.  Mas nem precisaria disto, basta ver os números sorteados, a coincidência das dezenas, pra quem faz um estudo, como eu faço, de todos os resultados, o que nas loterias da caixa é rotina, na verdade a probabilidade de alguns é acontecerem uma vez a cada um bilhão de anos. No final deste livro, haverá um pequeno apêndice onde vou mostrar uma relação de resultados impossíveis. Vocês poderão dizer, que eu sofro de esquizofrenia catatônica, retardamento mental, que sou o "louco" das historinhas do Mauricio de Souza, mas o que estou escrevendo é fato, é uma vergonha nacional que engana todos os dias milhões de apostadores, mas um dia as "bolinhas" cai, e vai levar muita gente poderosa e respeitada para o xilindró, o que é extremamente difícil neste Brasil com tanta corrupção política. Eu só confio no jogo de bicho, na lotogol, na loteca e na tele -sena. Como escrevi, serei mais claro no final deste livro.
 

   30.08.2002 (sexta-feira) 5 dias sem fumar e sem beber

   Acordei às 10:00h com o chamado do meu filho Josemario. Incrível, meu corpo inteiro tremia. Pus café dentro do bule e açúcar dentro do coador, esqueci a boca acesa do fogão de onde tirei a água quente do café. Me sinto todo errado.
   Mais tarde, levei meu filho pra escola, voltei, passei no Big, voltei pra casa e pensei em deitar até umas 17:00hs, mas resolvi ir limpar o bar, afinal sexta-feira o movimento é grande. Sentimentos de tristeza e inferioridade se apossaram do meu espírito. Lembranças de um passado negro, cheio de incômodos pra minha família. Lembrei da ruindade e do medo que tinha do meu pai, que quebrava pratos nas paredes durante minha infância, da minha mãe som seus ataques terríveis , se jogando no chão, berrando gritos agudos e fortes que traumatizaram a família toda, do meu tio e tia alcoólatras que moraram um tempo em nossa casa. Eu tremia quando eles chegavam, cansei de me esconder debaixo da cama, no porão da casa, morria de medo deles, porém mais do meu tio, que era extremamente violento. Muito criança, eu não podia entender porque moravam lá em casa.
   Domingo, que deveria ser um dia feliz, dava sempre briga. Minha avó, muito brava, ia com meu vô, que era doce e bom, comer lá em casa. Dia de macarronada, maionese e franco ao molho e até Coca-Cola às vezes. Minha mãe colocava os melhores pratos, tudo lindo, tudo enfeitado, até som de vitrola com Júlio Iglesias e Roberto Carlos. Todos ansiosos e famintos, prontos para degustar a deliciosa comida dominical. Mas os adultos pareciam estar sempre na defensiva, bastava uma ou duas palavras mal interpretadas e o estopim estava aceso. Baixaria, ataques pessoais, prato na parede e os berros agudos da mãe que sempre caia desmaiada. A comida já não descia mais, ficava só a tristeza, o choro e o cheiro de camomila feito para acalmar o que poderia ser evitado, se os adultos não tivessem tanta mágoa em seus sagrados corações. Lá se ia outra semana e chegava  outro domingo, novinho em folha. Minha mãe, recuperada, degolava cedinho duas galinhas, repetindo o ritual da semana anterior. Daí, antes das refeições minha avó orava, era o sinal, o espetáculo estava pra começar. E foram tantos e tantos domingos  de dor e tristeza lá em casa, que eu criei ódio do domingo até não sei que idade da minha tumultuada infância.
   Deus, tire de mim esses pensamentos. É só mais uma armadilha, para eu perder as forças e voltar a fumar e beber. Mas estou preparado e contra estas lembranças mando bala e água com alho. Brinco com meu filho e o amor por ele me dá forças contra meu inimigo mortal, traiçoeiro, manipulador, tridente do inferno, cigarro do diabo, chupeta do inferno.
   Minhas patas estão para ganhar filhotes, as tilápias do tanque estão grandes, os lambaris só vejo mais ao anoitecer,  pulando à cata dos insetos. É um verdadeiro calmante ver os peixes e os patos nadar...
   Criei um cacoete de colocar a mão no bolso, pensando que vou tirar um cigarro. Hoje, tive vários ataques de uivos, falei sozinho, imaginei minha vida sem vícios. Essa agonia vai ter que acabar.Mas quando? Quanto tempo terei de sofrer, de me esconder da vida, do cigarro e da bebida?
   Hoje é aniversário da minha irmã, ela e seu marido nos ajudam muito. Oxalá Deus lhe dê muita saúde, paz e luz!!! Ela se preocupa muito com nossa mão doente e sofrida. Cuida dela praticamente sozinha ou pelo menos mais do que todos os outros 8 irmãos(as) juntos.
   O vício geralmente é mais forte que o  amor, impede de ver a realidade. Todo e qualquer vício é extremamente prejudicial à saúde e ao coração. A mãe fez de tudo pela gente, ia a pé para o trabalho por não ter nem dinheiro do ônibus, comia só depois de ver os 9 filhos fartos, se sobrasse alguma coisa, coitada. Pra aguentar a brabeza do meu pai, educar 9 filhos e ainda trabalhar, só podia mesmo cair no chão e gritar, e gritar, e gritar...e os filhos crescendo, sofrendo, crescendo, sofrendo e aprendendo que o mundo não seria fácil. Oh, Deus, por que pensar nestas coisas agora? Qualquer pessoa que vive na estrutura emocional da sociedade sofre, a quem culpar, Deus?

   29.08.2002 ( quinta-feira)
   4 dias sem fumar e sem beber


      Ontem quando parei de escrever, atendi ainda a várias pessoas. Não vendo só hot-dog, tem x-salada, refrigerantes, balas, doces, cerveja  em lata, etc...Quando entra todo mundo junto, a agitação aumenta e com isso a vontade de fumar triplica de tamanho, a ponto de me fazer queimar o x-salada mais de uma vez ou deixar estourar as vinas no molho. É duro fazer vários lanches, dar troco, servir, limpar...e sentir o cheiro do cigarro impregnando o ambiente. Meu cérebro doente, parece parar de funcionar.
   Passo outra noite mal dormida, com dores, pesadelos, suores, medo, vou várias vezes ao banheiro, penso que estou tomando água demais, chupando bala demais, comendo demais, só dormindo de menos.
   Ao acordar tomo 4 xícaras de café com leite e cinco pãezinhos, devo engordar muito neste período, ontem comi 4 hot-dogs antes de fechar, carregado de milho, ervilha, batata-palha, maionese e ketchup com 2 vinas cada.Imagino que a gula será a causa de todos os meus pecados daqui pra frente.
   Como é duro, meu Deus, ver este tempo nublado, levantar da cama e saber que não posso fumar. O dia começa triste, nada tem sentido, somente o olhar e o sorriso do meu filho me fazem acreditar que vale a pena. Faço tudo que tem que fazer, trato os bichos do quintal e vou ao Big fazer compras. Sou pobre, compro sempre em pequenas quantidades, por isso é comum eu entrar no mercado quase todos os dias. Hoje, o Caminhão da Sorte da Caixa Ecônomica FEderal ou melhor, o caminhão das bolinhas viciadas da Caixa estavam no estacionamento do Big para realizar os sorteios desta semana. Os terráqueos primitivos acham que as loterias da Caixa são honestas, quanta ingenuidade, quanta besteira desses terráqueos, eu, mesmo com todos meus delíros mentais, tenho certeza da manipulação dos resultados. Mas não posso fazer nada, ainda, para alterar o egoísmo, a ambição e a burrice desses terráqueos primitivos, que insistem em jogar, sabendo que vão perder. Enquanto escrevo estas linhas, o rapaz, na mesinha da frente, bebe uma cerveja e fuma tranquilamente. Não é preciso dizer que todas minhas células nervosas entram em pânico. Como doces e mando bala...na boca. Vou à cozinha e dou  vários uivos, pra tentar em vão, resistir ao cheiro delicioso do cigarro que paira no ar. Ai de mim, Deus; ai de mim Jesus; ai de mim, Buda; ai de mim, Krishnamurti; ai de mim, meu filho amado! Tenho que ser mais forte, eu prometi isso a vocês e a mim, e vou cumprir, mesmo que tenha que ouvir ranger de dentes. Passaram-se 4 dias e 4 noites só e me parecem uma eternidade. No passado, quando fui operado de apendicite, fiquei mais de 100 dias sem fumar e sem beber. Quando achei que já estava bom e bem cicatrizado, inventei de beber e, bêbado, acendi o cigarro. Não parei mais, como se quisesse me vingar de todos os dias que fiquei sem satisfazer o vício. Imaginei que no dia seguinte  poderia parar de novo, mas, com remorso e de ressaca, fumei novamente, escondido da família por um bom tempo, pra que não soubessem da minha covardia e do meu fracasso, e as promessas desapareceram como a fumaça do cigarro, tudo cinzas, nada realizado, apenas o enorme sentimento de frustração de um pai que , na época, desempregado, caiu em tentação, enganado pelos pensamentos cata tônicos.
   Por isso tenho medo do fator tempo como meio para parar de fumar, é muito ilusório, a ansiedade pode passar anos camuflada, não sei. Conheço pessoas que ficaram anos sem fumar, beber e, de repente, sem saberem explicar, voltam ao vício e, o que é pior, dobrado. Eu mesmo já tentei de várias vezes e bolei vários truques para parar. Fiz terapia, raio-lazer, adesivos,goma de mascar de nicotina, volta na cadeira, despacho com galinha preta, uivei pra lua, fumei só em horas impares, diminuí o número de tragadas, enfim, mil e uma tentativas, que quase me viraram do avesso e não consegui. Por que então, justo agora, vou conseguir? Quem garante? O 13? Deus? Como vencerei os demônios da bebida e do cigarro? Como exorcizá-los? Que armas, que cruz, que estaca terei de enterrar no meu cérebro doente e viciado? Como farei pra que o cérebro viciado vença a si mesmo? Estão entendendo o drama dessas perguntas, terraqueos primitivos? Serei mais simples: - Como pode, meu cérebro viciado, que fumou durante 30 anos ou mais, consumindo 650.000 cigarros aproximadamente, que cagava fumando, sorria fumando, chorava fumando, que viveu, sofreu e amou fumando. O que pode fazer este cérebro doente apaixonado pelo cigarro e bebida, que tinha enorme prazer e ainda tem, para querer de verdade parar de fumar e beber para sempre? Como ele vai nocautear a si mesmo? Que loucura, os cigarros avulsos me olham como se entendessem meu pânico, medo e insegurança, momento a momento. Deus, vou dormir, não me abandone, pelo amor de Deus!

sexta-feira, 17 de abril de 2015





   3 dias sem fumar e sem beber  (28.08 quarta-feira)


   Nesta madrugada, tive o sono interrompido várias vezes, o cigarro e a bebida estava presente nos meus sonhos. Acordei com medo e em pânico. Que graça viver sem fumar e sem beber ? Me pergunto mas não tenho resposta. Vou ao psicólogo. Não sei bem o que falei durante a consulta, mas devo ter lhe contado as dificuldades que sinto em largar dos vícios, a batalha que venho travando com meu cérebro. À tarde , fui na mãe, ela percebeu minha irritação, mas não lhe contei que havia parado de fumar. Antes de eu sair, ela me deu dez reais, acostumada que está em achar que todos os problemas do mundo se resolvem com dinheiro. Naquele momento, eu precisava de tudo, menos dinheiro. Saí da casa da mãe, não dei muitos passos, comecei a chorar, tudo estava tão sem sentido, vazio, dolorido,   Triste, pensei na solidão da mãe, na sua velhice, nos seus 75 anos, longe de meu pai há mais de 10 anos, sufocando sua tristeza e solidão com cervejas. A mulher forte de outrora, que sustentou 9 filhos, hoje sozinha, dominada pelo vício da cerveja, orgulho e egoísmo emocional. Mas quem sou eu para julgar alguém?
   A vontade de fumar vem o tempo todo, estou agora no meu bar. Aqui, é comum pessoas entrarem fumando. Eu não vendo cigarro em carteira, só avulso. E, acreditem, não é fácil trabalhar vendo o cigarro ali, bem ao teu lado, é só esticar a mão, pegar o fósforo e acendê-lo.
  AiiiiiiiiiiiiiDeus, afasta de mim este cheiro, este copo, este cinzeiro. Neste momento, entra muita gente para saborear meu hot-gog. Paro agora.


 
 


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    1 dia sem fumar e sem beber  ( 26.08)


   Acordei com muita dor de cabeça e ressaca. Levantei as mãos pro céu, por ter aspirina em casa. No banho, a lembrança fraca do que tinha acontecido na noite, lembro da voz, da luz e do 13,   sem saber se foi real, sonho ou efeito da bebedeira. Só sei que minha decisão já estava tomada. No café misturei leite! Meu Deus, há quantos anos eu não tomava leite. Passei ansioso e triste o dia todo, consegui, com muito esforço, seguir a rotina do dia sem fumar e sem beber.Aqui no bar, trêmulo, começo a escrever. Tantos anos sem bater a máquina, mas dizem que é como andar de bicicleta, vc nunca esquece, só perde a forma.
   Impossível relatar estas primeiras horas sem fumar. Parece não existir nenhum vestígio de vida em meu corpo, estou assustado ainda com o que ocorreu ontem.
   Chega! Meus dedos estão muito trêmulos para datilografar sentimentos, pareço um peixe fora d'água, a depressão está grande, enorme, pareço estar carregando um fardo descomunal, demais para o meu tamanho.

   2 dias sem fumar e sem beber ( 27.08)


   É difícil escrever o que se  passa comigo neste momento, difícil os dedos acompanhar à máquina, meu corpo parece anestesiado. Pela manhã, não senti o espírito retornar ao corpo. Passei o dia ingerindo bastante água, chupando bala e comendo muito. Minha fome parece ter duplicado, assim como minha irritação e nervosismo. Acostumado a fumar por mais de 30 anos, sendo quase 3 carteiras por dia, quando ainda contava. Como viver sem o cigarro na mão? Em todas minhas relações com o mundo, o cigarro esteve presente.No banheiro, no quarto, no trabalho, quando bebia, quando lia...o cigarro sempre foi meu companheiro, minha sombra, minha luz! Se não matasse, não causasse mal a saúde, eu jamais o largaria. Mas pelo meu filho autista ( não sabia ainda que meu filho tinha AUTISMO) minha esposa, meu espírito, coração e as palavras de luz que vi no 13 aquela noite, tomei a decisão inteligente de parar de beber e fumar. Domingo, me lembro do jogo que fui ver, que tristeza!, perdemos de 2 x 1, um jogo que estava fácil de ganhar, mas os jogadores tem mania de estragar a festa quando o estádio está cheio.
   Está difícil seguir a rotina. Tratar o cachorro, dos patos,  dos peixes. À tarde, levo meu filho para a escola e, depois, vou buscá-lo. Quando o deixo na escola e fico só, o desespero é grande, a vontade de comprar cigarro é avassaladora, mas chupo mais bala ainda e bebo água em abundância.Água mesmo, não"aquela que passarinho não bebe".
   À noite, abro meu hot-dog, faço isso todos os dias às 18:30h. Aqui em casa é assim, minha esposa trabalha de dia e eu à noite. Meus movimentos para servir cachorro-quente parecem estar em câmara lenta, é como estar dentro de um pesadelo. Faço um esforço enorme para entender, dar o troco certo, pois todo o meu ser- cérebro, coração, pulmão, espírito - só pensa no cigarro e em abrir uma cervejinha estupidamente gelada. E que tortura quando entra alguém fumando, eu pareço babar como um boi baba quando rumina. Milho, ervilha, batata palha, etc...eu tremendo, derrubando, quase impossível colocar qualquer coisa no pão. O cliente estranhou o olhar de ?
   Quando vou dormir, sinto dores no corpo e acordo várias vezes, suando muito, mas, penso ser efeito de abstinência. Acordo irritado, mal humorado, sem vontade de sair da cama. Fui fazer compras pra lanchonete na FrigoMinas, da Rua General Carneiro. É torturante, esperar o ônibus sem cigarro na mão, andar pelas ruas, falar, escutar, ultrapassar os bares...Pior ainda é ter que explicar meu mau humor. As pessoas não entendem que é muito cedo para dar um sorriso, puxar assunto ou ser como eu era, com um cigarro na mão e uns goles no coração.
   Teve momentos hoje em que meu olhar fazia um arco-íris de cores, senti uma sensação de estar enxergando melhor, como se tivesse um pára-brisa nos olhos ou pingado colírio. Não cansei tanto para subir o morro quando levei meu filho pra escola. `A noite, no meu bar, fiquei sensível, senti angústia e tristeza. O pensamento cria as maiores ilusões emocionais, fantasias psicológicas, para eu voltar a cair no vício. Quando não é doloroso, tenta dar ilusões de alegria, parece até que tudo está bem, mas na verdade é uma armadilha do cérebro viciado, para que eu caia em tentação.
   Terei de ser um BIG-BROTHER DE MIM MESMO, terei de me estudar, refletir, não me deixar cair em tentação. Não poderei ter medo de me olhar, de ver como eu sou, sem a fumaça do cigarro e a espuma da cerveja, que camuflam meu verdadeiro espírito. Prometi parar de fumar, pelo meu filho que precisa de mim, e vivo. Terei de estar sempre vigilante, tomar cuidado com as trapaças do pensamento 24horas por dia, como eu já disse é o BIG BROTHER do meu espírito, que Deus seja meu calmante! São 23:00h de terça-feira, fecho meu hot-dog agora, o movimento foi pequeno hoje. Vou tomar um banho e contar uma história pro meu amado filho. Depois, tomara que eu consiga dormir.


 



                                 EXPLICAÇÃO:

   Não sei porquê e nem que forças me levaram a escrever este livro. Mas quero deixar claro que nunca fui escritor, não tenho diploma e nem faculdade. Não vou pedir para nenhum redator ou amigo corrigir erros de concordância, pontuação ou de acentuação, ou mesmo tentar modificar qualquer detalhe ou incluir alguma coisa. Tudo que lerem aqui, tenham certeza, é como foi escrito na sua forma original, numa máquina de datilo
grafar, sentado na minha pequena lanchonete, onde eu passava as noites vendendo cachorro - quente. Geralmente os escritos se davam à noite, enquanto esperava clientes ou quando fechava a lanchonete.
   Nesta época estava no auge da loucura, da depressão, de uma tristeza profunda, no fundo do poço...e não sabia mais o que fazer para parar de fumar e beber. Foi quando, dentro de meus delírios, babando de bêbado, na parede do bar uma luz imensa formou o nº 13 e no brilho intenso daquele 13 uma voz me disse: " A partir de amanhã, você não vai mais fumar e nem beber. Pegue sua máquina de escrever e desabafe nas folhas de papel tudo que sentir por não fumar e nem beber. Lembre-se, escreva o que seu pensamento mandar, e quando puder,  publique um livro. Depois disso, o nº 13 sumiu, assustado, bebi e fumei naquela noite, até não aguentar mais.